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11.1.08

Rio: Leblon

Vista do Leblon e do Morro Dois Irmãos, D.R.


“Lá não existe / Felicidade de arranha-céu / Pois quem mora lá no morro / Já vive pertinho do céu” (Ave Maria no Morro, João Gilberto). Das ruas do Leblon ainda não dá para perceber, mas o crescimento da favela Chácara do Céu, no sopé do Morro Dois Irmãos, já começa a levantar muitos sobrolhos. Que o digam os moradores do Alto Leblon, tido como um dos bairros mais pacatos do Rio de Janeiro ― quase uma aldeia, reduto da alta burguesia carioca, onde ainda se cumprimenta o jornaleiro, as crianças brincam na praça e se pára no bar da esquina para dar dois dedos de conversa. Até ver, contudo, a aura residencial do Leblon, seguramente o bairro com mais vedetas por metro quadrado, mantém-se incólume, não obstante os seus luxuosos condomínios terem quase todos ultrapassado, em muito, a altura máxima outrora estabelecida em quatro andares.

Outra sua característica muito curiosa é a de ser praticamente auto-suficiente. Há de tudo: da praia badalada, com direito a segmento para as amas, aos melhores pontos de sumos naturais ― aconselho o Juice Co. Lounge (Av. Gen. San Martin, 889) e o Universo Orgânico (R. Conde de Bernadote, 26, lojas 105 e 106) ―, sem esquecer a animação nocturna, sobretudo no Baixo Leblon, com o Jobi (Av. Ataulfo de Paiva, 1166) à cabeça graças às mesas lotadas madrugada fora com cariocas e não cariocas em amena cavaqueira.


Andrea Prado e Christiana Guimarães, da Grã, D.R.


O melhor exemplo desta concentração está, todavia, na rua Dias Ferreira, repleta de óptimos restaurantes, livrarias, lojas ou até guloseimas inesperadas numa cidade tropical como sejam as 50 variedades de bombons artesanais da Envidia (nº106-A), nome sugerido pelo cantor Djavan, casado com uma das sócias. Como alternativa mais personalizada às boas marcas do Shopping Leblon (Av. Afrânio de Mello Franco, 240) e do São Conrado Fashion Mall (Estrada da Gávea, 899, São Conrado), existe nesta mesma artéria, no nº417, um prédio com vários estilistas por andar ― como Isa Lima (Domitila, sala 406), moda feminina muito colorida, ou Andrea Prado (Grã, sala 304), famosa pelas suas bolsas, carteiras e malas de viagem em couro, linho ou até palha de milho.


Estrada do Joá vista do La Suite, foto de JMS



Aproveito a boleia de um conhecido para me fazer a uma das estradas mais bonitas do Rio, suspensa em pilares, que serpenteia o trecho da orla entre São Conrado e o Joá. É aqui, debruçada sobre o mar, que fica La Suite (R. Jackson de Figueiredo, 501, tel. 0055 21 2484 1962). É a casa do francês François Dussol, que, após o lançamento da La Maison (a cargo do seu irmão Jacques) em 2004, na Gávea, descobriu este ponto excelente, nas imediações da praia da Joatinga, frequentada por surfistas. Felizmente, o La Suite recebe hóspedes, que podem assim optar por um dos sete quartos, cada um de uma cor diferente, com direito a estampas de Andy Warhol nas paredes e a um quinhão da vista só para eles. Em construção está uma piscina, daquelas que se perdem na linha do horizonte. O sossego é absoluto, a menos que seja dia de dar uma festa de arromba para algum VIP de passagem pelo Rio. Contam-me que o fotógrafo Mario Testino foi um dos felizardos.


Piscina do La Suite, D.R.

10.1.08

Rio: Ipanema

Piscina do Fasano com vista para o Morro Dois Irmãos, D.R.


“Cariocas são bonitos / Cariocas são bacanas / Cariocas são sacanas / Cariocas são dourados / Cariocas são modernos / Cariocas são espertos / Cariocas são diretos / Cariocas não gostam / De dias nublado” (Cariocas, Adriana Calcanhotto). O Arpoador, na divisa entre Copacabana e Ipanema, passou a ter um rival de peso na cobertura do novo hotel Fasano Rio na hora de admirar o mais elogiado pôr-do-sol da cidade. É também aqui que encontro a piscina, com serviço de bar, mais bonita de toda a cidade, com direito, para além do já citado fim de tarde, a vista desafogada para toda a marginal que se estende de Ipanema ao Leblon, entre a pedra do Arpoador, de um lado, e o Morro Dois Irmãos, do outro.


Fasano na esquina da Vieira Souto com a Joaquim Nabuco, D.R.


O Fasano, mais um nome de São Paulo que chega ao Rio para marcar a diferença, abriu as suas portas em Agosto de 2007. Instalado num prédio de oito andares, discreto mas que dá logo no olho, este Fasano depressa se tornou o ícone do novo Rio chique, apesar de ainda não estar tão afinado em matéria de serviço como o seu irmão paulistano. Seja como for, Rogério Fasano não brinca em serviço; quando se juntou aos outros investidores no projecto, já eles tinham então contratado o designer de interiores Philippe Starck, não abdicou de ter uma palavra a dizer.


Poltrona Big Mamma, de Gaetano Pesci, no corredor do Fasano, foto de JMS


Da “fricção” de génios e pontos de vista divergentes, nasceu um consenso que se traduz no seguinte: a classe de Rogério sente-se, sobretudo, na recepção (lindo o balcão de cinco metros e seis toneladas, todo escavado num tronco único de pequiá), no lobby (onde mistura reproduções de mobiliário brasileiro dos anos 50 e 60 com marcas registadas de Starck como os enormes espelhos ou as cortinas a separar ambientes, mas aqui em palha de seda), no Londra (o bar do momento, com quase 100 capas de LP’s da sua colecção privada a forrar as paredes) e no restaurante Fasano al Mare (a cargo do chef Luca Gozzani, Rogério bateu o pé que queria colunas como as do aeroporto Santos Dumont, mas permitiu os lustres fabulosos de Murano). Já Starck teve maior “liberdade” na piscina, nos corredores (foi sua a ideia de colocar as poltronas Big Mamma, de Gaetano Pesci) e nos quartos (muito confortáveis, tendo como marca registada o espelho “gota de água”, também utilizado para reflectir a paisagem).


Uma das suites topo de gama do Fasano, D.R.


Foi um investimento brutal, que implicou importar material topo de gama dos quatro cantos do mundo. Com um total de 92 quartos, do mais simples com cama king size à suite de luxo, é certo que apenas pouco mais de 40 dão directamente para o mar. Os restantes têm de se contentar com os fundos, mas até ai a filosofia da casa prevalece e argumentam que mais vale ficar no pior quarto do melhor hotel do Rio do que num quarto medíocre com vista panorâmica. É um ponto de “vista”.


Varanda com vista lateral de um dos quartos do fundo do Fasano, foto de JMS


Além de estar a mudar o perfil do Arpoador, o Fasano, na esquina da Joaquim Nabuco com a Vieira Souto, também veio tornar mais disputado o quinhão de areal frente ao posto 8. De todas as praias urbanas do Rio, Ipanema continua a ser a preferida, mas convém não fazer confusões; cada trecho de areal carioca tem a sua identidade: o célebre posto 9, outrora símbolo do movimento hippie e da resistência à ditadura, serve de ponto de encontro para os corpos mais enxutos do Rio, ao passo que entre o 8 e o 9, face às ruas Teixeira de Melo e Farme de Amoedo, é onde se reúnem gays, simpatizantes e musas que não se importam de dar a cara (os mais discretos preferem a Reserva, no Recreio). Não por acaso, uma das novas boates da moda entre o público GLS, o 69, fica na esquina da Farme com a Prudente de Morais, ao lado da choperia Devassa.


A praia frente ao célebre posto 9, em Ipanema, D.R.

Aliás, como em muitos outros pontos da cidade, aqui é fundamental ter, mais do que uma mera noção geográfica, uma percepção de como as coisas funcionam. Por uma questão de comodidade e segurança, os cariocas apreciam ter tudo o que precisam no seu bairro. Ipanema não é diferente e se o assunto é gastronómico, rume ao Quadrilátero de Charme, cheio de restaurantes e cafés recomendados. É precisamente neste perímetro que fica a mais nova casa de dois andares do Gula Gula (Rua Henrique Dumont, 57). Tudo começou com um modesto ponto no Leblon, onde o engenheiro Fernando de Lamare, o Fernandão, queria ocupar os dias de ócio. O sucesso foi tanto que hoje, passados mais de 20 anos, o seu filho Pedro e a neta, a chef Nanda, continuam o legado. Ao lado, no número 65-A, fica a Q-Guai, onde a dupla Amanda Haegler e Maria do Rosário encantam com três colecções ao ano de propostas femininas muito vivas e joviais.



Mas, em matéria de compras, não há como escapar à Visconde de Pirajá. Com trânsito nervoso e gente apressada como quase todas as avenidas no miolo do bairro paralelas à Vieira Souto, é aqui que encontro a minha livraria preferida no Rio, a Travessa (nº572), com café e uma filial no Shopping Leblon. Só perde em programação cultural para a Letras & Expressões (nº276). Entre as duas, no número 365, não tenho como falhar a Farm. Sem vitrina, a fachada da nova megaloja de 300 m2, é linda e já é conhecida por um fenómeno muito curioso: nos dias de maior movimento, os homens ― namorados, maridos, amigos, simples curiosos ― ficam sentados ou em pé nas escadas enquanto as suas acompanhantes, que se confundem com as vendedoras, conferem as novidades. A linha, alegre, colorida e descontraída, é a “cara da carioca” e o mérito é da estilista Kátia Barros (na foto), ela mesma uma filha do Rio, criada na praia do posto 6, que, apesar da expansão do negócio, não esquece que a sua inspiração está aqui.

A calar a boca dos que acusam Ipanema de se estar a “copacabanizar”, a Garcia d’Ávila (e, até certo ponto, a Maria Quitéria), perpendicular à marginal, é mais “o Rio a querer ser os Jardins, em São Paulo”; nota-se que as melhores marcas e restaurantes capricham especialmente na sua apresentação. Por oposição, o Mil Frutas Café, que ocupa uma loja para lá de acanhada no número 534-A, arriscava-se a passar despercebida, não fosse serem aqui vendidos os gelados mais amados da cidade.

29.1.07

Perdições (7)


A propósito de chocolate...

(Direitos reservados)

Chocolate com griffe
O Valle Flor, a funcionar no Hotel Pestana Palace, é um restaurante caro, não o nego, mas não se acanhem em considerá-lo para uma ocasião especial. A excelência da sua cozinha e o charme do hotel não desiludem. Para mais, e depois de ter lido a edição de Fevereiro da revista Evasões (cuja página reproduzo à esq.), fiquei a saber também que a jovem pasteleira do Valle Flor, Ana Rita Cristovão, ganhou, pela quinta vez consecutiva, o prémio Chocolatier do Ano no Festival Internacional de Chocolate de Óbidos. Em causa esteve uma das suas criações de sonho: Mil-folhas de chocolate manjari e maracujá, em espuma de cacau e trufa morna.
Outra dica preciosa: existe em Carcavelos, desde 2003, o Cacau Clube, uma associação não lucrativa que visa dar a conhecer o chocolate. O Cacau Clube organiza, entre Fevereiro e Março, três sessões que vão incluir, no final, a degustação de uma sobremesa criada por um chefe de renome. Mais informações através do e-mail: cacau.clube@telepac.pt


Chocolate à alentejana
Nem tudo se resume a Lisboa e arredores. Que o diga quem já foi à Mestre Cacau, em Beja. Criada, em 2005, pelo casal Célia e João Dias, esta casa inspirou-se nas chocolatarias de outras paragens para criar no Alentejo a sua marca registada. Assim, além da confeitaria própria, na Mestre Cacau produzem-se chocolates artesanais que surpreendem pelos recheios de medronho, café de Timor ou aguardente da Vidigueira.



(Fachada da Aquim, Rio de Janeiro, direitos reservados)

Chocolate de autor
Altas temperaturas não combinam bem com chocolate, mas isso não tem impedido o Rio de Janeiro de ganhar tradição na matéria. Um dos meus locais preferidos, para nenhum chocólatra "botar" defeito, é a loja Aquim, no Leblon (Av. Ataulfo de Paiva, 1321). Oriunda de uma família que se tornou famosa pelos seus buffets magistrais, Samantha Aquim (na foto, publicada na Veja), graças à sua formação na escola francesa de gastronomia Lenôtre, é quem comanda hoje as operações e produz artesanalmente, recorrendo quase sempre a chocolate belga, nove tipos de sofisticados bombons. Com uma média de venda superior às 200 unidades por dia, tudo ali é de arregalar a vista, pois as criações são expostas, como se de jóias se tratassem, numa vitrina especial.


Chocolate com pimenta

Se o nome do chefe Ferran Adrià dispensa apresentações, de tão famoso que se tornou no mundo inteiro, quando se fala em chocolate quem merece uma referência especial é o seu irmão Alberto, graças ao conceito Cacao Sampaka (Mercado de Chocolate). Com lojas em várias cidades espanholas (como Madrid, Girona, Valência, Málaga...) e até em Berlim, na Alemanha, é, contudo, a casa de Barcelona que chama mais à atenção. Num misto de café e loja, no nº 292 da Conseil de Cent, é o local ideal para comprar umas trufas perfeitas e beber uma típica chávena de chocolate espesso (com a consistência idêntica a um pudim, como os espanhóis gostam), enriquecido de uma pitada de canela e de pimenta.

26.1.07

De olho no fim-de-semana (1)

(Roibos, direitos reservados)

Esta é uma boa dica para os amantes de chá. Eu não fui lá (ainda), mas confio em quem me passou a informação. A First Flush tem agora uma loja na Rua do Crucifixo, 108-110, à Baixa de Lisboa, onde é possível comprar, para além dos tradicionais apetrechos, chás e infusões frescos ao quilo. E, para os indecisos, eles organizam degustações das 12h00 às 14h00 e das 17h00 às 19h00. A menos que me desiluda, acho que ganharam mais um freguês.