(Gravura antiga da Confeitaria Colombo, Rio de Janeiro, direitos reservados)
“Francisco Palmares suspira, ergue os olhos e vê um anjo. A luz passa através dele, como é suposto que aconteça com os anjos, e desce depois dourada e mansa sobre os largos espelhos com molduras de jacarandá.
«Cada espelho destes pesa uma tonelada e meia. Vieram da Bélgica no princípio do século. Certamente ainda guardam a imagem de Olavo Bilac, Machado de Assis, Lima Barreto. Todos eles tinham o costume de vir aqui tomar chá às cinco da tarde, sabias?»
Monte encolhe os ombros.
«Não sabia e nem isso me interessa. Prefiro a nossa Biker, em Luanda, agrada-me a decadência.»
O coronel ignora o comentário.
«O Olavo Bilac era tão pontual que as pessoas costumavam acertar o relógio assim que ele entrava.»
Trecho de "O Ano em que Zumbi tomou o Rio", de José Eduardo Agualusa
É provável que, hoje, no Rio de Janeiro o termómetro ronde os 40 graus. Em Lisboa faz frio. Apetece-me começar o dia com um chá bem quente e um pastel de nata na Confeitaria Colombo. Gosto do seu cenário de filme, digno de um Visconti. Gosto, tal como Agualusa, de ver reflectidos nos seus espelhos belgas os escritores e poetas que já não moram cá. Foram-se embora, mas deixaram as palavras. E são também as palavras que me guiam hoje, nesta manhã fria de Lisboa, até ao coração do velho Rio. Num abrir e fechar de olhos.
― Tenham um bom dia! ―