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1.5.07

As flores do 1º de Maio

Gosto da Madeira. Tenho dela uma das minhas primeiras recordações de viagem fora de Portugal continental e, já adulto, tive oportunidade de voltar ali e de me encantar de novo com muitas das peculiaridades da sua cultura e da sua geografia. Por isso mesmo, acho que a Madeira merecia mais do que ser notícia no 1º de Maio por dois factos lamentáveis.

Um deles, infelizmente, já não é novidade para ninguém, Alberto João Jardim, não contente com o descerrar ensandecido de placas inaugurais, continua a brindar-nos com pérolas como esta: a oposição ao PSD/PPD na Madeira nunca irá a lugar nenhum enquanto for feita por "pé de chinelos" e "gente rasca". Pois eu, que sou social-democrata assumido, digo que é uma pena, pois seria com enorme gosto que assistiria à sua derrota eleitoral.


O segundo caso do dia, da lavra do Dr. Paulo Portas, também não deixa de ser menos preocupante; dele, ao menos, eu sempre esperava que tivesse mais noção do peso das palavras. No seu discurso a propósito da data, saiu-se com esta:
«para nós CDS/PP trata-se de um festejo que acarinhamos. Nós acreditamos no valor do trabalho. Nós acreditamos que o trabalho liberta». Nada a opor não fosse o "trabalho liberta" um dos slogans nazis mais repetidos nos campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial. Paulo Portas pode ser muita coisa, mas não é desinformado nem um alienado, logo não se aceita que tenha incorrido num erro tão grosseiro por mera desatenção. Um acto tão mais infeliz quando Portugal foi palco há pouco tempo de manifestações de extrema-direita que a todos nós, cidadãos de bem, envergonham.

25.4.07

Memória curta


Nem tudo no pós-25 de Abril me agradou (os desmandos políticos, os saneamentos básicos, o caos do PREC), mas enquanto houver neste País uma minoria de gente teimosa que se mobiliza para eleger António de Oliveira Salazar como o "grande português", é um sinal mais do que claro que os discursos políticos no dia 25 de Abril podem até ter ficado reduzidos a mera conversa de circunstância, mas que nunca é demais lembrar a Revolução dos Cravos. E, já agora, ensinar às nossas crianças e jovens o que foi o antes, o durante e o depois. Para que a ignorância não continue a servir de desculpa.

18.4.07

Na pele do lobo

Eu sei que a estória já anda a ser contada há demasiado tempo. Reconheço até que a estória, de tão repetida nos ínfimos detalhes, já cansa. Eu, pelo menos, estava decidido a deitá-la para trás das costas. Mas não deixam. A menos que eu queira dar uma de alienado e prefira reter-me no nosso primeiro-ministro a cumprir o seu papel institucional em Marrocos ― posso sempre também dizer: olha que giro, já estive ao pé daquelas muralhas rosa (ou serão salmão?) de Marraquexe!

Acontece que a estória está mal contada. Acontece que, por mais que me esteja a borrifar se José Sócrates é ou não engenheiro e ache que o país tem coisas bem mais urgentes para discutir, há coisas a mais a não baterem certo. Afinal, a revelação do dossier-bomba de ontem foi adiada para hoje. Pode ser que a montanha acabe por parir um rato. Não será a primeira vez.

Mas digam-me uma coisa, vocês que, tal como eu, estudaram numa universidade (pública, privada, não interessa), lembram-se alguma vez de ter entregue uma prova (de inglês técnico ou de outra coisa qualquer, tanto faz) não no local onde decorreu a dita prova, mas de a enviar mais tarde, directamente para o reitor da universidade, devidamente acompanhada de um cartão com o timbre de um gabinete de Secretaria de Estado? É a velha questão: à mulher de César não basta ser honesta, ela tem também de provar que é honesta.

Se José Sócrates não queria estar envolvido neste lodaçal de suspeitas, nada mais simples do que se ter comportado como um estudante comum de engenharia. Acontece que José Sócrates não se comportou como um estudante igual aos outros. Porque aos outros estudantes, estou certo, não foi permitido fazer uma prova em casa (sabe-se lá recorrendo a que ajudas externas), nem enviá-la mais tarde, deixando clara a sua função enquanto secretário de Estado. Nada me move contra Sócrates, até o respeito tirando uma questão ou outra com a qual não concordo (o novo aeroporto, o TGV…), mas se ele não queria ser lobo, bastava-lhe não ter vestido a pele. Tão simples como isto.