(Corto Maltese by Hugo Pratt, direitos reservados)
Ano Novo. Vida nova. Ensinaram-nos a encarar cada novo ano que começa como um novo capítulo nas nossas vidas. Um capítulo que obedece a uma lógica anterior, mas que, ainda assim, se apresenta em aberto. Em branco. Por preencher. Isto lembra-me Corto Maltese, companheiro de tantas viagens. Diz a lenda que, certo dia, uma cigana quis ler a palma da mão esquerda de Corto, ao que este acedeu sem resistir. A cigana benzeu-se três vezes, horrorizada. Não pelo que viu, mas pelo que não viu. A sua mão não apresentava linha da sorte. Por mais errante que uma alma seja, ou talvez mesmo por isso, Corto não se conformou em ser um homem sem sorte. A primeira coisa que fez quando chegou a casa foi pegar numa navalha e, zás, de um golpe certeiro traçou a sua linha da sorte.
Serve a metáfora para concluir uma coisa. Na vida, podemos limitarmo-nos a aceitar aquilo que nos calha em sorte. Em aceitar que as páginas da vida se vão preenchendo por si mesmas, com ou sem intervenção do divino. Ou podemos fazer como Corto. Traçar os nossos caminhos. Assumir as nossas escolhas. Não é garantido que sejamos mais felizes, ou mais bem sucedidos. Mas é certa a satisfação de não termos sido meros peões e de termos ousado escrever, reescrever se for preciso, uma, duas, três vezes, as vezes que forem precisas, sempre na tentativa de acertar, a história da nossa vida.