Da próxima vez que pedir água à refeição, vou pensar duas vezes. Bom, se calhar até não vou, mas, uma coisa vos garanto, vou a passar a enxergar a água com outros olhos. Serve isto para dizer que num destes dias fui convidado pela Maison de la France ― pela região de Rhône-Alpes, se quiser ser mais exacto ― para uma degustação de águas… Estranhei o convite, mas, na dúvida, resolvi ir conferir.
Antes que se apressem a tirar conclusões precipitadas, esclareço: não sendo eu um perito na matéria, ainda chego a distinguir a água da torneira de água mineral, a saber se o gás é natural ou induzido ou até a estabelecer as minhas preferências em matéria de marcas, proveniências e paladar (mais salgado ou doce consoante as ocasiões). Mas fico-me por aqui. É claro que já tinha ouvido falar de alguns bares de águas ― um dos pioneiros surgiu no célebre armazém Colette, em Paris, com mais de cem variedades ―, mas, confesso, curiosidade à parte, nunca me predispus a gastar um bom dinheiro para ir “apenas” beber água.
Introduzido o tema, devo dizer-vos que os franceses sabem, de facto, vender uma ideia. Como se de vinhos se tratasse, deram-nos a provar várias águas da região em copos próprios de pé alto, que pudemos apreciar pela densidade (podem ser mais ou menos encorpadas), pela tonalidade contra um fundo branco (e oui, as águas têm tonalidades diferentes) e saborear. Mentir-vos-ia se dissesse que fui capaz de ir além do salgado e doce, do metálico ou apimentado, mas o certo é que um palato treinado, tal como nos vinhos, consegue efectivamente distinguir todas as nuances de uma água. E assim aprendi (mais) uma lição: existem águas boas como aperitivo (normalmente as mais aromáticas, que podem substituir o vinho branco), outras que vão bem com saladas (as que possuem um ligeiro sabor acidulado, com um toque alimonado), outras que casam com pratos muito condimentados (ai é bom que deixem uma certa efervescência na boca), outras para molhos (caso da famosa Evian, conhecida por ter um gosto salgado e adstringente), outras que vão bem com peixe (convém que sejam salgadas e ligeiramente efervescentes), outras para acompanhar queijos (aqui têm mesmo de ser adstringentes) ou sobremesas (águas doces e suaves), e ainda as que fazem as vezes de digestivos (fortemente efervescentes e de paladar fresco, o que ajuda a limpar, não a eliminar okay?, a gordura e a refrescar a boca). Para muitos, estou certo, tudo isto pode parecer uma tremenda frescura, mas eu, que fui cheio de dúvidas, gostei. Depois, parece-me uma óptima alternativa para quem não quer ou pode beber álcool, mas ainda assim deseja tirar o máximo partido do que está a comer e a beber.
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26.1.07
Água para que te quero!
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