Preâmbulo Pertenço ao grupo dos indecisos que nutrem por Leonardo DiCaprio, enquanto actor, um sentimento ambivalente: por um lado, reconheço-lhe potencial, até uma certa profundidade de registo, mas, por outro, aquela cara de eterno menino do coro, e parte da sua filmografia, deixa-me sempre de pé atrás. Seja como for, Leo DiCaprio é o “novo” Robert De Niro de Martin Scorcese ― é o próprio realizador quem o diz ―, e é provável que venha a tornar-se um grande actor. Para já, continua a ser alvo da desconfiança, e de alguma injustiça, até por parte dos seus pares e afins ― veja-se o que aconteceu na recente edição dos Globos de Ouro, em que DiCaprio estava nomeado para melhor actor dramático por duas vezes (em Diamante de Sangue e Entre Inimigos) e não só não ganhou como, parece, terá sido alvo da chacota de George Clooney e Justin Timberlake.
Enredo Estou curioso para ver Diamante de Sangue, de Edward Zwick (Shakespeare Apaixonado ou O Último Samurai), nos cinemas a partir de quinta-feira. Para já, interessa-me a estória e confio, até poder emitir opinião própria, nas críticas que tenho lido e que falam de uma boa mistura entre acção e drama, e de um filme que se vê bem, apesar de algumas incongruências (o sotaque irregular de DiCaprio, por exemplo, que ainda assim é elogiado por quase todos na composição da sua personagem) e de não acrescentar nada de novo (não escapam à tentação do lugar-comum que é o romance em tempo de guerra entre DiCaprio e Connelly). O filme tem como ponto de partida a guerra civil que devastou, em 1999, a Serra Leoa ― só para recordar: os conflitos na Libéria e na Serra Leoa ocasionaram a morte de 400 mil pessoas entre 1989 e 2003 ―, e centra-se nas personagens de Danny Archer (Leonardo DiCaprio), um traficante de diamantes do Zimbabué, e de Solomon Vandy (Djimon Hounsou), um pescador de etnia Mende que, após a invasão da sua aldeia pela Força Unida Revolucionária, é obrigado a separar-se da sua família e a ir trabalhar para uma mina de diamantes. Solomon descobre um exemplar valiosíssimo, que enterra antes de ser preso e de travar conhecimento com Danny, que vê nessa pedra uma oportunidade única para sair de África. A realidade é, porém, bem mais complexa e este filme pretende ser uma denúncia do comércio dos “diamantes de sangue” para financiar conflitos armados, cuja extracção se faz à custa de violência, trabalho semi-escravo, jogadas políticas e com a cumplicidade dos chefes da indústria das pedras. Para desenvolver esta trama é também importante a entrada em cena da personagem de Maddy Owen (Jennifer Connelly) ― ainda que mal aproveitada, segundo alguns críticos ―, uma jornalista norte-americana que vai para a Serra Leoa com o ideal de desvendar a verdade. A busca do diamante escondido, e o que representa para cada um, em tempo de grande perigo e convulsão, lança as três personagens centrais numa corrida pela própria sobrevivência.
A polémica Já era de prever que a indústria de diamantes não ia gostar da forma como sai mal no “retrato”. O Conselho Mundial de Diamantes exigiu que o realizador informasse o público de que a realidade actual da mineração é bem diferente do que aparece no ecrã e a De Beers, uma das maiores empresas do ramo, deu-se mesmo ao trabalho, e à despesa, de contratar Nelson Mandela para ser o porta-voz da imagem e da posição da indústria frente às denúncias do filme. Zwick não foi na conversa, conta com uma retaguarda de peso no seu elenco ― Leonardo DiCaprio é activista ecológico, Jennifer Connely é porta-voz da Amnistia Internacional e Djimon Hounsou é militante da paz na África ― e possui amigos influentes e sensíveis a estas questões como Brad Pitt, Angelina Jolie ou George Clooney. Outra polémica envolveu a Warner Bro., que foi acusada de ter prometido próteses às crianças mutiladas e de ter adiado a sua entrega para a altura da estreia mundial do filme e assim obter maior publicidade. A produtora negou.
O apelo de África Confesso-me um pouco cansado de, sempre que há uma rodagem em África, ver os actores nas revistas a falarem de como se comoveram com a dura realidade e de como desejam, um dia (sabe-se lá quando), dedicar as suas vidas a fazer o bem qual missionários. Enfim, Leonardo DiCaprio não foi excepção e já afirmou que rodar em África o Diamante de Sangue o modificou, pois fez com que descobrisse «o alcance da miséria» no continente e o «indescritível luxo» da vida no Ocidente. Eu diria que não é preciso ir a África para perceber isso, mas, tudo bem, mais vale tarde do que nunca. O actor ficou, particularmente, impressionado com muitas crianças moçambicanas que conheceu durante as filmagens e que apresentavam mutilações provocadas pelas minas. Impressionou-o também o facto de as pessoas, apesar da pobreza e das doenças, manterem uma alegria de viver contagiante.
Os locais de filmagem Gravar na Serra Leoa, um território complicado que não sai da lista dos lugares a evitar, estava a prori fora de questão. A solução encontrada foi filmar em Moçambique, nomeadamente em Maputo, e na África do Sul para fazer as vezes da Serra Leoa. Na África do Sul, onde o elenco deu mais que falar, a maioria das cenas foi gravada em Port Edward, uma estância balnear na região de Kwazulu, Natal, e também na costa oriental, nos arredores da Cidade do Cabo. A presença da equipa, e de celebridades como DiCaprio, fizeram as delícias do comércio local (e não só, pois conta que até a igreja metodista de Port Edward foi arrendada durante as filmagens e isso rendeu um bom dinheiro à paróquia) e de hoteleiros como Gary Bentley. Claro que ter passado quatro meses em filmagens na África do Sul, deu tempo de sobra a DiCaprio para fazer das suas. Sobretudo na bela Cidade do Cabo, onde foi visto inúmeras noites na farra com jovens modelos. E foi assim que lugares já antes badalados como o famoso Mount Nelson Hotel (na foto acima) e clubes nocturnos como o Café Caprice, Opium ou o Ignite ascenderam à lista ainda mais desejada dos que se podem gabar: “aqui esteve Leonardo DiCaprio”.







