
Era uma vez um miúdo que não gostava de circo ― quando todas as outras crianças riam com os palhaços, ele, apavorado, chorava.
O miúdo não gostava de circo, mas queria ser como o rapaz do trapézio voador.
O miúdo, agora homem, tornou-se o rapaz da porta ao lado e não o rapaz do trapézio voador.
O rapaz da porta ao lado passou a invejar o rapaz do trapézio voador porque o rapaz do trapézio voador era tudo aquilo que ele, o rapaz da porta ao lado, queria ser mas não era.
O rapaz da porta ao lado invejava a liberdade e a audácia do rapaz do trapézio voador porque o rapaz do trapézio voador arriscava a vida todas as noites, ao passo que ele, o rapaz da porta ao lado, se limitava a viver sem riscos.
O rapaz da porta ao lado invejava o rapaz do trapézio voador porque o rapaz do trapézio voador vivia na luz, ao passo que ele, o rapaz da porta ao lado, se limitava a ficar quieto na sombra.
O rapaz da porta ao lado invejava o rapaz do trapézio voador porque o rapaz do trapézio voador conservava as suas asas e a ilusão intacta de tocar no céu, ao passo que ele, o rapaz da porta ao lado, tinha trocado as suas asas pela ilusão de ser apenas um homem entre os homens.
Mas, um dia, o rapaz da porta ao lado descobriu que também podia ser o rapaz do trapézio voador.
Como um ilusionista que, à força de tanto repetir o truque, se convence da ilusão, também o rapaz da porta ao lado acreditou que podia ser o rapaz do trapézio voador.
Todas as noites, o rapaz da porta ao lado pendurou-se no trapézio, a baloiçar de um lado para o outro, à espera de alguém que agarrasse a sua mão estendida.
Todas as noites, o rapaz da porta ao lado lançou-se do trapézio, num voo sem rede, à espera de ter uma mão estendida a que se agarrar.
Até que se cansou de esperar.
O rapaz da porta ao lado cansou-se de ser o rapaz do trapézio voador e quis voltar a ser apenas o rapaz da porta ao lado.
O rapaz da porta ao lado deixou de invejar o rapaz do trapézio voador porque descobriu que o rapaz do trapézio voador fazia da ilusão a sua vida, ao passo que ele, o rapaz da porta ao lado, fazia da vida, sempre que queria, uma ilusão.
5 comentários:
muito bom!
o segredo está nas asas...
em mantê-las, em usá-las, conservá-las, protegê-las, e voar, voar, voar...
Nunca estamos como e onde queremos ou a ilusão não deve ser uma forma de vida? Ou nem sempre o que parece é? Ou é preciso experimentar certas circunstâncias para poder percebê-las?
Assim, de repente, este teu texto levanta algumas das questões mais relevantes da nossa existência...
Estás a escrever tão bem Miguel :)
A ilusão é~muito necessária à vida, mas é preciso saber ligá-la à realidade.
Nada como umas doses bem regradas de ilusão…
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