
Estava John, britânico, encostado ao balcão do bar, atordoado pelo Wiener Gemütlichkeit (easygoing austríaco) e por uns copos a mais, quando se aproximou uma bela rapariga austríaca. Ela deixou-lhe na mão uma mortalha com um número de telefone e desapareceu na neblina de fumo. Não trocaram uma palavra.Com medo de ter sido uma alucinação, John esperou pela luz do dia para mandar um SMS à misteriosa aparição: “Quem és tu?”. A resposta não tardou. Angela, assim se chamava ela, marcou um encontro para essa mesma noite. O primeiro de muitos. Estão juntos até hoje.

Flex é a discoteca onde tudo aconteceu. Desemboco aqui já a madrugada vai alta ― e nem sequer é uma figura de estilo rebuscada, pois o Flex fica literalmente à beira rio, junto à ponte Augarten ―, depois de ter navegado por vários bares de Lerchenfelder Gürtel, a norte do sétimo bairro. Estou acompanhado do DJ Bastillo, que faz de cicerone e me facilita a entrada. Lugares como o Loop, o Mezzanin, o Rhiz ou o Chelsea dividem a cena com o que já foi, e ainda é, uma espécie de bairro vermelho de Viena, com prostituição à vista desarmada, mas o Gürtel está a regenerar-se graças a fundos comunitários.
Bastillo faz parte de uma nova geração de músicos, produtores e DJ’s que tenta agora a sua sorte na cena clubber vienense, e não só, depois do boom que catapultou para o estrelato internacional nomes como Kruder & Dorfmeister, responsáveis por alguns dos remixes de sucesso de Madonna. Fumo de cigarro, presença incómoda mas incontornável, e produções à parte ― quem fizer questão de ver gente bonita e ambientes mais sofisticados, vai ter de bater à porta de lugares da moda como o Passage, o Rote Bar (no Volkstheater) ou o Volksgarten, junto ao Bairro dos Museus ―, o certo é que este roteiro noctívago mais alternativo, mas com enorme aceitação entre os mais jovens, leva-me a tomar contacto pela primeira vez com o conceito de Kippen.

No fundo, trata-se, tão só, de nos deixarmos levar pela atitude da música, independentemente do seu estilo ― do funky ou do jazzy à electrónica. O segredo, ou a diferença, está no facto de o som made in Viena, por mais intenso e envolvente que seja, nunca atingir aquele limiar insuportável em que a cabeça começa a latejar. Talvez seja um conceito difícil de traduzir por miúdos, mas a sensação é, asseguro, boa.

Comprovo-o, precisamente, na pista de um Flex à cunha. Não há muito a (d)escrever sobre o Flex ― o ponto alto do espaço, que lembra um porão industrial, são os rebuçados e chupa-chupas numa parede de vidro por cima dos urinóis. Interessa mesmo é que os melhores DJ’s se pelam para actuar aqui, que o seu sistema de som é tido como um dos melhores na Europa e que consegue a proeza de reunir debaixo do mesmo tecto o tipo certinho de gravata e o matulão com rastas até à cintura. Tem o seu quê de decadente e de transgressivo, mas parte ― grande parte, arriscar-me-ia a dizer ― da sua graça está mesmo ai. E depois, o amor acontece. Mesmo nos lugares mais improváveis. Ou não.
GUIA PRÁTICO
A SkyEurope opera, quatro vezes por semana, um voo directo entre Lisboa (partida à 01h30) e Viena (partida às 21h30) com preços desde 29 euros por cada trecho.
ONDE FICAR
Roomz Vienna
Paragonstrasse, 1
Tel.: 00431 7431 777
3 comentários:
Nunca fui a Viena. Mas começa a parecer-me que no dia em que lá for, vou encontrar uma certa sensação de familiaridade.
Estes registos são muito tentadores ....
Bom fds!
ADORO Kruder & Dorfmeister!!! E esse périplo nocturno pareceu-me bastante bem… Pior foi acordar na manhã seguinte, não?!
Tenho muito que ler, por aqui.
Trabalho demais, leitura amena de menos.
O bom dos blogs é isto. Fica tudo aqui, guardadinho, aguardando a leitura, mesmo que não seja em dia.
Eu volto.
Bj!
Enviar um comentário