Associo Marbelha à minha mais tenra infância e às férias que então fazia, à semelhança de tantas outras famílias portuguesas que queriam mudar de ares sem ter de ir procurar muito longe. Depois, com o passar dos anos, perdi-lhe o rasto e os hábitos mudaram. Não devo ter sido o único. Marbelha, que, na realidade, não é só a cidade, mas também todo um município que ocupa boa parte da costa mediterrânica da província andaluza de Málaga, foi lançada para a ribalta nas décadas de 1950 e 60 ― conta-se que em boa parte se deveu a um tal príncipe Alfonso Hohenhole von Liechtenstein, que terá comprado aqui dez hectares à beira-mar, mais tarde transformados no Marbella Club, e os tornou porto de abrigo dos seus amigos influentes ―, mas, já se sabe, quem se molda aos caprichos dos ricos e famosos está sempre sujeito a, um belo dia, ter de dar lugar a uma nova distracção.


Fixado o novo mercado-alvo, mas sem nunca perder de vista que foi e quer continuar a ser uma estância de veraneio com pretensões a figurar nas colunas sociais, Marbelha tem vindo a expandir-se, nem sempre de forma muito airosa do ponto de vista do ordenamento urbanístico, e goza hoje de um elevado padrão de vida, o que faz dela a segunda cidade do mundo com maior registo de Rolls-Royce, por exemplo, e um lugar muito procurado por estrangeiros que, mais do que a elegerem como destino de férias, a escolhem para segunda residência durante boa parte do ano.

Marbelha virou-se para o futuro. Ainda assim, as novas avenidas como a del Mar, que vai do centro à Playa de Venus, os passeios públicos como o renovado Maritimo, que ladeia a Playa de la Fontanilla, as artérias comerciais como a Severo Ochoa ou a Ricardo Soriano, onde ficam as melhores lojas, ou até mesmo jardins como o de la Constitución, com um auditório no meio, por mais agradáveis que sejam, não têm como rivalizar com o casco antigo da cidade.

Com o seu epicentro na Plaza de los Naranjos, toda ela rodeada de edifícios nobres, mas tomada de assalto pelas esplanadas dos cafés e restaurantes que disputam a calçada e a sombra das laranjeiras, o núcleo histórico está praticamente reduzido a um dédalo de ruas pitorescas ― sendo as mais fotogénicas a Carmen, com os vasos de sardinheiras presos nos muros caiados de branco, e a Gloria, sinuosa, que desemboca na pracinha da igreja da Nossa Senhora da Encarnação ― e de algumas praças, como aquela onde fica o castelo e parte das antigas muralhas árabes que defendiam a cidade dos ataques inimigos. É aqui, e praticamente só aqui, que sentimos que da legítima herança andaluza nem tudo foi feito tábua rasa na Costa do Sol.
(a reportagem, na íntegra, será publicada na edição de Maio da revista Rotas & Destinos)